Paradoxo da última viagem (conto)

As poucas vezes que entrei em um avião foram todas acompanhadas de uma reflexão que acho até óbvia: e se esse for o um entre milhares que cai… olhando para os lados imagino que as pessoas em volta fazem a mesma coisa… a cada turbulência, uma memória da infância ou qualquer outra que pareça agradável, já que pode ser a última. Adivinhar o que alguém está pensando naquela fração de segundo em que ela mesma acha que pode estar vivendo seus últimos momentos… um pouco invasivo talvez… mas quanta riqueza deve haver a consciência pode oferecer….

A minha mente costuma trabalhar nesses momentos, mas como todos os outros, nada fica registrado, ou pelo menos noventa e nove por cento… tudo perdido no esquecimento e o último um, é claro, só vai pro papel se e quando o avião pousar… Fico imaginando quantos ideias como essa não se perderam… ao mesmo tempo, quando o acidente de fato acontece… ou até quando a morte é uma certeza… quem sentirá minha falta? será que meu velório vai ter bastante gente? Meu pet vai ficar sozinho? A Família? Time de futebol?… Quando sabemos que o fim está próximo, regras morais farão algum sentido? É possível que naquele exato instante a mente finalmente se liberta?…

Já pensei estar nesse instante algumas vezes, mas nunca pensei que realmente fosse acontecer… talvez esse seja o meu jeito de lidar com o possível fim… a esperança… fico remoendo essas ideias estranhas na mente não só em aviões, mas também quando estou dirigindo, caminhando sozinho e até momentos antes de dormir… uma bala perdida, um infarto fulminante ou qualquer outro evento muito raro… no entanto é predominante o horizonte de que eu vou ver o sol nascer amanhã e cuidar da minha rotina até a próxima vez em que vou considerar de novo alguma despedida pessoal…

Uma nova turbulência… e mais uma vez tento olhar para aqueles que estão mais próximos tentando decifrar seus olhares de ora tranquilidade, ora agitação… todos esses anônimos, tomados ou não pelo medo da morte… um momento efêmero, mas carregado de realidade… um breve lapso de tempo sem burocracia, custo, constrangimento, papel, técnica, cálculo… da até pra considerar que existe igualdade, não naquilo que a mente mostra, mas na possibilidade usar e abusar da imaginação, seja lá onde, quando, e como ela possa levar… acho que não há como saber…mesmo porque, se perguntar depois, não caberá em palavras.

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