dois MUNDOS (Conto)

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Créditos: https://pxhere.com/pt/photo/1575635

A ordem para abandonar o navio fora dada próxima às 14hs, após sucessivas e frustradas tentativas de fugir do imenso bloco de gelo no qual encalhamos. Por instantes não quis acreditar, pensei até em questionar o capitão, mas logo recolhi-me a insignificância de marinheiro de primeira viagem que era e subi com o restante da tripulação no bote salva vidas que nos levaria ao que pode ser comparado com “terra firme”… estava coberta de neve, mas foi o suficiente para que pudéssemos respirar por algumas horas antes de pensar no que fazer.

O navio possivelmente não afundaria tão cedo, talvez nem afundasse, ficaria apenas preso àquela imensa pedra e quem sabe não acabaria fazendo parte dela, uma coisa era certa, já não tinha mais volta… meu pensamento copioso era: vou morrer… primeira viagem… Logo na primeira vez que deixei a terra vernácula em busca de algum trabalho, lembrei e senti prontas saudades das animadas tabernas e do moderno café da cidade. Foi lá inclusive que soube desta travessia, que fui convencido das incríveis possibilidades de enriquecimento que dormiam no destino. Pena que esta enorme pedra congelada estava no meio do caminho.

Pensei na minha família e minha infância camponesa… uma pobreza diferente da que enfrentamos nas cidades, adornadas por esses novos prédios e repletas de novas experiências… as quais nunca pude pagar inclusive… com exceção do café, um… café… Porque os belos bolos, doces e tortas continuaram na vitrine. Estávamos lá para conversar sobre trabalho, mas também sentimos fome e vontade de experimentar esse tal progresso e foi aí que eu aceitei o emprego. Posso fazer dinheiro e voltar para a casa, parecia realmente fácil…

Foi apenas uma visita àquele café e algumas palavras com essa gente de roupa esquisita e lá estava eu, sentado em uma rocha gelada e pensando com meus companheiros uma forma de sobreviver. Não era preciso falar na verdade, mas todos pareciam ter o mesmo pensamento: “Fui enganado!”. Nunca conseguiremos o objetivo que nos moveu até ali… voltar pra casa ricos!… foi o que prometeram. Não poderemos sentar novamente naquele lugar chique só pra fingir que lê jornais ou conversar sobre livros lançados nas últimas semanas, menos ainda de conversar sobre as atitudes ou leis do Rei. Vamos ficar aqui, presos na imensidão branca.

Pensando bem, como foi que consegui chegar em uma conclusão tão estúpida. Como pude imaginar que um dia poderia me sentar na mesma mesa que o dono do navio? Naquele momento era mais fácil que eu me tornasse alimento, não que eu pudesse me deliciar com um… “É hora de levantar!”… foi assim que o capitão quebrou o silêncio de sabe-se lá quanto tempo… “Levaremos o bote e os suprimentos para direção na qual deveríamos ir… não quero assitir o gelo engolir meu navio e não conto com a possibilidade de algum outro passar por essas águas”.

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