Sad Night (Conto)

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No exato momento em que soava o gongo de início do sexto assalto, o namorado de uma fã de boxe na segunda fila prestava mais atenção ao celular do homem na linha de baixo, que se preparava para filmar o reinício da luta como havia feito em todos os anteriores. Sem querer ele enquadrava também, do outro lado do ringue, um grupo de amigos fazendo uma selfie com um smartphone ligeiramente para o alto. Um dos quatro acabou reparando em seguida na quantidade de holofotes dispostos em forma hexagonal no alto do ginásio, preparado especialmente para aquele combate.

Do lado de fora, flanelinhas disputavam vagas entre as centenas de automóveis que paravam irregularmente em um estacionamento improvisado, um deles, usando um colete em forma de ‘X’, acendia um cigarro sentado em sua cadeira de praia enquanto escutava o jogo do seu time de coração pelo rádio e acenava com a cabeça para um cidadão que fazia uma corrida diária com seu cachorro no trajeto e horário de sempre. O animal, na coleira, caminhava suavemente sem olhar para os lados enquanto um carro acelerava na direção oposta, guiado pelo motorista que tinha o objetivo de chegar até o drive-thru de sua lanchonete favorita.

Passou em frente a um prédio, no qual, no sétimo andar, um estudante de direito, em crise de ansiedade, tentava se preparava para as provas semestrais de sua faculdade enquanto fazia um chá de Melissa na esperança de se acalmar. No andar de baixo um senhor olhava emocionado para uma antiga fotografia com o amigo cujo enterro havia acontecido a poucas horas e apagava seu contato da antiga agenda de telefones que costumava preservar. Sua televisão ligada transmitia sem sua atenção um antigo filme western protagonizado por Charles Bronson.

Na rua, um jovem fugia da polícia apenas por medo, sem nenhum flagrante de furto ou drogas nos bolsos. Uma criança que passeava com os pais assistia a cena assustada, enquanto sua mãe, sem perceber o ocorrido, postava uma foto nos stories de sua rede social favorita enquanto tomava um sorvete instantâneo e esperava seu marido que a pouco saira para buscar o veículo da família. No interior do estabelecimento dezenas de estranhos aguardavam famintos e ansiosos seus pedidos que se limitavam a três tipos, acompanhados com o mesmo refrigerante e guarnição.

Na cozinha, Dona Maria preparava sua parte e cantava um de seus sucessos favoritos de um obsoleto cantor romântico e animava o restante da equipe com exceção de um, que sentia dores nos braços após espremer cento e vinte laranjas para sucos e perceber que estava atrasado com a louça que esperava para ser lavada e devolvida ao salão, que era ocupado também por um garçom freelancer que contava as horas para poder gastar o pouco dinheiro que receberia antes do fim do dia com seus pequenos prazeres supérfluos e indispensáveis. Pensava em um bar a alguns km dali, que naquele instante estava aberto e era visitado por um homem que bebia doses de whisky enquanto ouvia uma bela versão de moon river na voz de uma solitária e sonhadora cantora de jazz. Do lado de fora, um imigrante peruano autônomo que decidira tentar a sorte longe de casa montava hot-dogs com batata palha e….

3 comentários em “Sad Night (Conto)

    1. Muito legal mesmo………….o movimento da narrativa tem a fluides das imagens do observador………tudo muito dinâmico e bem encaixado……….loco……..haehaheah………..

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