Happy hour (Conto)

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Créditos: https://pixnio.com/pt/objetos/livros/estante-estantes-de-livros-livraria-prateleira-moveis-biblioteca-livro-estante-de-livros#

Era pra ser uma despedida comum, como outras que já tinha vivenciado na empresa, apenas uma pessoa que por qualquer motivo que fosse não trabalharia mais conosco. Seu tempo de dedicação naquele serviço e sua idade eram o máximo de distinção que eu podia perceber e pelos quais nutria uma profunda admiração. Os motivos eram suficientes para que eu não perdesse em nenhuma hipóteses aquele que seria o ‘happy hour’ mais sensível, perturbador e enriquecedor da minha vida.

Encerramos as atividades do dia perto das 20 como de costume e uma hora depois eu estava na casa da minha agora ‘ex-chefe’. Até onde sabíamos, o marido havia falecido antes de seu ingresso e os filhos moravam no exterior há muitos anos. O local era simples, pequeno, mas bem estruturado e a comida escolhida era sensacional….. “o que é isso?” perguntavam alguns convidados e ela limitava-se apenas a responder que tinha feito na noite anterior. Existiam prateleiras incomuns na casa, repletas de pequenos souvenirs de viagens e outros móveis também aparentemente antigos.

No auge daquele encontro éramos aproximadamente 10 pessoas, mas em torno de uma da manhã, apenas seis permaneciam, já sentados em roda no quintal espaçoso adornado por um belo jardim. Dividíamos algumas garrafas de vinho e entre uma taça e outra assuntos políticos acabaram surgindo, gerando incômodo de uma parte dos participantes, em especial um senhor que pouco se pronunciava até mesmo no ambiente de trabalho… em uma tentativa fracassada de desviar o tema um de nós fez a pergunta: “o que vocês faziam antes da revolução?”

Mal sabíamos apenas que só a anfitriã daquela noite responderia…. protagonizando as próximas e últimas horas daquele estranho encontro…. “PESQUISA!” ela disse prontamente, intensificando a respiração…. alguns começaram a rir e a balançar a cabeça negativamente e ela guardou um profundo silêncio……….. “É sério?”….. novamente o silêncio….. “achava que após proibirem essa atividade todos tinham sido caçados e presos” …. “e foram…. escapei porque mudei minha vida por completo…. e tinha prometido a mim mesmo nunca revelar para ninguém…. mas foram os melhores dias da minha vida e eu quero dividir com alguém”….

A essa altura os convidados aparentavam ter um sentimento dividido como o meu, sem saber exatamente o que fazer…. e acabávamos apenas escutando mais histórias daquela respeitada “ex-colega” de trabalho….. e em alguns casos, não escondiam a decepção pela revelação. “Minhas antigas prateleiras eram repletas de livros eu tinha um piano, discos, era amante da arte, até que tudo isso foi tirado….. pareciam perigosos demais…. lembro-me de momentos anteriores ao da guerra, de como o significado das palavras começou a mudar e algumas como ‘colateral’ passaram a nos assustar….”

“Falavam de nós…. culpavam nosso trabalho pela violência e pela cisão da humanidade…. mas nosso objetivo sempre foi criar um mundo melhor, encontrar os problemas e tratá-los….. e se olharmos para o resultado, a união nunca veio e a guerra nunca foi embora”….. àquelas divulgações me causaram uma epifania, fazendo com que minha estima por ela só aumentassem e entre os olhares estarrecidos dos presentes, o senhor silencioso continuava sem demonstrar nada.

“No começo nós apenas não ganhávamos muito… nosso problema era só racionar os recursos para viver até o fim do mês….. mas depois de tudo, me contentei a virar um cadáver com funções vitais como pedia o governo…. um robô preocupado apenas em me dedicar ao trabalho que me foi imposto, assim como para todos… mas é difícil esquecer essas origens… é impossível não rememorar aqueles anos… e eu continuo procurando uma forma de resistir….”.

…..

Após um novo longo período de silêncio, as pessoas começaram a encontrar desculpas que as permitiriam ir embora… entre elas aquele senhor que não havia expressado uma palavra. Eu tentei sem sucesso manter o contato com minha ex-chefe, queria saber mais sobre o período que ela descrevia, mas nunca mais tive nenhuma notícia dela ou de qualquer outro ‘cientista’ que viveu aqueles anos, fica apenas a curiosidade, já que nossa história também diz muito pouco sobre esses renegados.

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