DECRETO (Conto)

“De todos os ódios, nenhum supera a ignorância contra o conhecimento” – Galileu Galilei

matrix-full-3145364_640
créditos: pixabay.com

A república ia de vento em popa, se afastava cada vez mais de medidas assistencialistas aos trabalhadores, ninguém mais queria saber dessas políticas comunistas de dividir dinheiro do povo com o povo, enriquecia como nunca os empresários, especialmente os mais abastados que existiam, a desigualdade social já se aproximava dos patamares do século XVI, o trabalho escravo já era bastante relativizado, afinal, não se pode impedir uma pessoa de realizar sua atividade laboral em troca de água, comida e moradia se ela for adulta e simplesmente quiser, a imprensa nem tinha mais do que reclamar, afinal recebia todas as notícias prontas e já escritas, só faltando a impressão e distribuição.

Nada parecia dar errado e aquele sítio caminhava realmente a passos largos para ser um grande exemplo de administração de recursos no futuro. O chefe maior já nem via necessidade mais de gastar dinheiro a toa com coisas supérfluas, como a ciência e a educação. Já tinha médico demais no mundo, qualquer cidadão que já teve filhos sabe cuidar de um machucado ou um doente, professor mente demais, quer saber como era o mundo antigamente é só perguntar aos parentes mais experientes e é claro, não existia mais nenhuma necessidade de se pensar nos direitos das pessoas quando o maior especialista de todos os tempos no assunto fazia parte do governo.

Mas o azar sempre ronda aqueles domínios e o resto do mundo já invejava tamanho avanço político, social, econômico e até cultural. Ficava cada vez mais claro que em breve a população de outras herdades pressionaria seus representantes para usufruir dos mesmos privilégios, já não se aceitava mais tanta liberdade, e ela já nem era mais tão compatível com esses tempos contemporâneos, era a polícia que tinha que decidir o que podia ou não se fazer. E assim, os demais líderes resolveram atrair um meteóro para que este atingisse o novo paraíso. Tiveram o cuidado de escolher um local próximo, na costa, para que não ficasse tão fácil de perceber o esquema, mas nenhuma pedra minimamente sensível escolheria aquele lugar, o plano fora facilmente desmascarado.

Pela primeira vez aquela cúpula tinha um problema, e a primeira reação do soberano foi a de visitar a costa e anunciar nos microfones que ninguém precisava se preocupar, pois no mar não tem nenhuma casa. Mas uma semana antes da queda daquela rocha um dos auxiliadores cometeu o deslize de vazar a informação de que uma onda de proporções desconhecidas se formaria e atingiria pelo menos metade das terras cadastradas. A insatisfação rondou o gabinete, e o supremo chanceler não escondia sua fúria. Enquanto isso a nação entrava em pânico, lotando mercados para garantir doses de suas bebidas favoritas e esgotando os galões de gasolina e passagens aéreas, nenhuma pessoa queria morrer com dinheiro guardado ou sem estourar o limite do cartão de crédito. Mas no dia seguinte, todas as teletelas transmitiram um novo pronunciamento sereno do comandante:

“Amigos e amigas de nossa grande e gloriosa república, na tarde de ontem uma informação não confirmada foi veiculada sem o nosso consentimento, levando milhares de cidadãos ao desespero e a cometer o equívoco de extinguir seus últimos recursos. Quero compartilhar com todos que nada devemos temer, afinal, estão correndo algum risco apenas aqueles que não sabem nadar. Mesmo assim, em concordância com minha ótima equipe, composta por técnicos do mais alto escalão decidimos por publicar o decreto ℵ101, incorporado a nossa carta magna, que proíbe ondas gigantes em nosso litoral. Além disso, vamos distribuir bóias de braço para todas as crianças, o que tem se mostrado eficaz a séculos. Deus está conosco, obrigado…” 

A felicidade e tranquilidade geral e completa foram restabelecidas, não se podia esconder tamanha confiança naquelas palavras e a multidão que havia se formada nas praças, feiras e outros centros comerciais, começou a dispersar-se e retomar a normalidade gradualmente. O grande timoneiro da nação havia novamente demonstrado fibra, trabalhando além daquilo que suas funções exigiam, o golpe internacional seria claramente frustrado pelas atitudes brilhantes e antecipadas de um verdadeiro e comprometido dirigente.

Um comentário em “DECRETO (Conto)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s