Sr. Zelig (conto)

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Senhor Zelig era um cidadão como outro qualquer, na escola vestia as roupas da moda para adolescentes, mas sem grife, jogava os mesmos games que os amigos, hackeados, tinha um celular cujo modelo tinha menos de cinco anos, ia à igreja todos os domingos desde os vinte três anos, onde fazia silêncio e repetia as frases ecumenicas como a situação pédia. Assistia o futebol durante a tarde no mesmo dia e se sentia à vontade para proferir xingamentos contra o juiz ou os jogadores entre um gole ou outro de cerveja, não a preferida, mas a mais vendida no seu contexto social.

Era casado, conquistou sua mulher ainda na adolescência, não aquela que enchia seus olhos, mas sim a que aceitou as condições que precisava. Ela não reclamava muito, afinal a Senhora Zelig também não tinha o casamento dos seus sonhos. Ele trocava o chuveiro e as tomadas antes de precisar chamar um profissional e ela adorava cozinhar para a família. Na verdade: só aos domingos, em quase todos. Queria ser dona de casa, mas as circunstâncias exigiam que ela trabalhasse como professora, a vida no interior ficara um pouco mais difícil nos anos anteriores.

Sr. Zelig gostava de receber seus amigos para um jantar, mostrar seus equipamentos eletrônicos e suas habilidades de churrasqueiro, enquanto a senhora Zelig exibia seu jogo de panelas e preparava os acompanhamentos. A conversa ao redor dos assados era sobre futebol, mulher e política. Já no outro ambiente, receitas, moda e novelas. O casal tinha muita facilidade para falar sobre esses assuntos, agradavam a todos com suas frases que pareciam ser formuladas de antemão e com o temperamento quase sempre sereno.

Tiveram um filho, que quando adolescente esteve munido de um computador muito semelhante ao melhor oferecido pelo mercado, no qual podia gastar horas em jogos online ou minutos realizando pesquisas para a escola, que, por sua vez era a mais em conta entre as particulares da cidade. Sempre tentou um desconto, mas as notas do menino nunca ajudavam. Frequentava também o cursinho de inglês e tinha uma guitarra, no entanto, pouca música podia ser ouvida em seu quarto geralmente com as portas fechadas.

A família sonhava com que o rapaz fosse médico, ele tentou uma vez, mas uma série de fatores aliados as cotas não permitiram o acesso a uma universidade pública. Acabou cursando direito em uma faculdade local. Foi aprovado alguns anos depois no exame da Ordem e em seguida em um concurso público. A última vez que tive notícias, pensava em mudar-se da casa dos pais, mas teria dificuldades de pagar o aluguel e a parcela do financiamento do carro semi-novo que comprara quando assumiu o cargo.

Essa manhã eu recebi a triste notícia do falecimento do Sr. Zelig através das redes sociais, um infarto aos 66 anos de idade. Havia se aposentado a poucos anos e desenvolveu o costume de sentar-se à frente da casa em uma cadeira de praia para observar o movimento suburbano. Lembrei de quando éramos vizinhos e confesso que fiquei um pouco incomodado ao imaginar como se comportaria nos próximos anos aquela família tão normal.

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