Um corpo (Conto)

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Amanheceu um dia como qualquer outro em dia como qualquer outro se via muita gritaria, empurra empurra nos pontos de ônibus e estações de metrô, supermercados com prateleiras vazias, escolas abandonadas e parquinhos infantis em chamas. As ruas acumulavam o lixo, os carros se espremiam pelas ruas nos dois sentidos ignorando placas e semáforos e não muito raramente invadiam as calçadas, caso fosse necessário para contornar um possível acidente, causando uma breve dispersão na multidão que seguia o fluxo, a passos largos e ritmados trombando os ombros e acessando a rede.

Quando baixei o celular por alguns momentos, notei um homem morto na calçada, do qual cidadãos desviavam ou pulavam, causando um descompasso semelhante ao dos automóveis que quase nos atingiam….. estava vestido com um terno, tinha o corte de cabelo degradê…. estava de bruços, com o rosto de lado e já arroxeado….. havia sangue escorrido de seu nariz e no chão…. seco….. sem perceber, eu estava parado….. atrapalhando a movimentação metropolitana……

Um segundo homem chegou pela rua puxando uma espécie de carroça, na qual acumulava caixas de papelão e garrafas plásticas…. era diferente dos demais…. não tinha uma preocupação aparente com a aparência ou as roupas e carregava estranhamente um sorriso no rosto…. tirou um cigarro do bolso da camisa, um isqueiro do bolso, percebeu minha perturbação e puxou assunto enquanto tragava:

“Menos um…. pulou lá de cima… não sei bem se é o terceiro dessa semana ou o mesmo de ontem….”

Era o primeiro que eu havia notado na vida, permaneci em silêncio e sem nenhuma reação…

“Tá cada vez mais comum…. vários nesse mesmo prédio….. durante a noite, quando não tem ninguém aqui embaixo”…. (continuou aquele senhor)

Eu continuava em choque…. olhei para cima e passei a conhecer a altura daquele edifício…. mas uma dúvida inédita me pairava desde o momento em que bati os olhos naquele corpo…. então perguntei: “Mas porque ele faria isso?”

O homem sorriu novamente, esmagou a guimba com o pé, ergueu seu carrinho e pouco antes de continuar sua marcha respondeu: “Pelo motivo de sempre oras, tinha um emprego, uma família tradicional e muitos bens materiais….”

2 comentários em “Um corpo (Conto)

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