O Homem na multidão (Resenha/ Opinião)

POE, Allan. O Homem na multidão (conto). 1840

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Antes de qualquer coisa quero declarar que li o conto com olhos de um historiador leigo, sem nenhuma pretensão de realizar uma crítica literária. O objetivo de discorrer sobre ele é expor as impressões e reflexões a respeito de ideias, críticas sociais e características artísticas do período em que Allan Poe viveu e as relações com a contemporaneidade, buscando guardar os devidos distanciamentos em relação a sensibilidade do autor. Em outras palavras, o texto é encarado aqui como um start para um devaneio irrelevante. O título me lembrou instantaneamente às reflexões de Friedrich Nietzsche sobre o “espírito de rebanho” e o “super homem, sensação que se confirmou ao longo do escrito, que estimulou ainda pensamentos sobre as sociedades urbanas, moda, estereótipos, propaganda ideológica, excentricidades e arrogância. Cabe a ressalva também que a leitura foi realizada em conjunto com o artigo Homem da multidão e o flâneur no conto “O homem da multidão” de Edgar Allan Poe de Sérgio Roberto Massagli, o qual esclareceu muitas percepções e influenciou outras. Por último e talvez mais importante alerto que não me contive em pensar as cenas descrevendo-as, o que considero spoilers da narrativa do escritor estadunidense, que pode ser acessado previamente aqui.

O conto se desenvolve integralmente a partir das impressões de um personagem não nomeado que vagueia pelo centro de Londres na primeira metade do século XIX. Ele inicia seu relato com uma frase em alemão: “es lässt sich nicht lesen” (não se deixa ler – traduzido no próprio texto) que significa, segundo o próprio narrador, um saber popular que impede que uma série de mistérios sejam revelados antes da morte de quem os presenciou, talvez até porque mereçam se perder para sempre na história, ou porque não devam ser expostos para olhos públicos.

O texto original (The Man of the Crowd), foi publicado em 1840 e as características descritas no conto permitem identificar uma espécie de “pré-história da Belle Époque londrina”, na qual a burguesia já havia se consolidado como classe dominante, mas ainda não dispunha de recursos para empreender as mudanças materiais que se observaria na Europa, sobretudo em Paris, a partir de 1871. O personagem, no entanto, descreve uma cidade em franco crescimento, percebendo profundas alterações na paisagem da capital britânica, sobretudo nas multidões que vagueavam pelo centro urbano.

O protagonista, recém recuperado de uma enfermidade que o próprio não revela, mas que se indicava grave, se atenta para diversos grupos de pessoas que circulam no interior ou frente à “grande janela do “Café D…”, o qual serve de cenário para a estória. Escrito em primeira pessoa o texto flui a partir da mente saudável do personagem, “num daqueles estados de espírito que são exatamente o oposto do ennui”, que o permite sentir prazer no simples “no simples respirar”, e o estimula a refletir sobre o “mar tumultuoso de cabeças humanas” que se apresentava à sua observação.

As primeiras descrições do personagem mostram algum desdém em relação à turba em movimento. Pessoas que aparentavam não dispor da mesma sensação de felicidade daquele que os narrava e apenas seguiam seu caminho seja ele qual fosse, ação comum a todos transeuntes, apesar das notáveis diferenças observadas pelo protagonista, que identifica através das vestimentas, da movimentação, dos atos, comerciantes, trabalhadores, batedores de carteira, entre outros grupos. O avanço da noite fazia “os aspectos mais gentis desaparecerem e os mais grosseiros emergirem com ainda mais força”, estimulando o interesse do protagonista.

As críticas implícitas no texto indicavam discussões tangenciais ao que Kant escreveu sobre a “insociável sociabilidade humana”, que decorre de um mecanismo natural que paradoxalmente estimula os homens à participar da sociedade e, ao mesmo tempo, desenvolve um pensamento repulsivo ao meio social, fazendo com que os indivíduos busquem formas de se destacar nos meios coletivos aos quais participam. Os andantes londrinos compunham a turba e eram anulados por ela, vitimados pelos produtos modernos das cidades modernas.

Ambientes urbanos que estimularam reflexões de Walter Bejamim, talvez o filósofo mais presente no conto de Poe, indiretamente, já que o literário é mais antigo, ele incorporou o conceito do flanêur trabalhou como um observador da cidade no período de desenvolvimento da segunda revolução industrial europeia e realizou uma atividade ao mesmo tempo artística e científica, desnaturalizando a paisagem e a sociedade em busca da novidade ou da diferença, a qual o filósofo frankfurtiano concluiu posteriormente ser apenas aparente, superficiais e sem representação de avanços significativos para a humanidade.

O flanêur de Allan Poe é entretanto instigado à observar um semblante idiossincrático, de impossível classificação instantânea: “um velho decrépito, de uns sessenta e cinco anos de idade”, que fascinou o narrador ao ponto de empreender uma perseguição a pé por dois dias, até este se sentiu aborrecido pela tamanha repetitividade dos atos da longeva e estranha figura e simplesmente desistiu de encontrar mais respostas a respeito da trajetória da mesma. O protagonista encerra com a mesma frase alemã que abrira o conto, refletindo que o senhor é “o tipo de gênio do crime” que não permite a nenhuma leitura de seus atos e enterra consigo mesmo uma história que poderia ser fascinante.

As reflexões que se desenvolveram a partir da leitura conto de Alan Paul em 2018 são sutis, mas tangenciam questões relativas ao importante papel observador da arte, que estimulada pela sensibilidade e subjetividade busca a captura do Zeitgeist. O personagem é um cidadão sem ocupação e – apesar de não deixar explícito – escapara da morte por uma doença, ele se sente amplamente forte e motivado à observar paisagens que poderiam ser consideradas comuns, realizando o exercício filosófico de desbanalizar as paisagens e sociedades banais do cenário urbano e sentindo-se especialmente atraído por uma figura que não conseguia descrever, classificar ou identificar.

Não é pertinente imaginar o que Alan Paul pensara no momento em que escreveu este conto, mas as reflexões implícitas nesta obra estimulam a escrita, observação, leitura e compreensão da sociedade, independente do período em que esteja. Não pude deixar de pensar na obra prima de Orwell (1984) e na mente repulsiva dos cidadãos de bem, viciados em uma ideologia própria que busca homogeneizar pessoas através do consumo desenfreado e incentiva a prática de esconder os “crimes” e as fraturas sociais, valorizando os aparentes sucessos. Cabe a nós o trabalho reflexivo, realizado através da nossa necessidade e obrigatoriedade de consumir e produzir cultura, para que pensamentos não se percam e nem se anulem na turba contemporânea e principalmente para que – neste aspecto diferentemente do pensamento científico – possamos acessar experiências sensoriais memoráveis.

 

REFERÊNCIAS:

(com link para os textos, apesar de não ter lio exatamente as edições que expostas abaixo).

NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratrusta.

MASSAGLI, Sérgio Roberto. Homem da multidão e o flâneur no conto “O homem da multidão” de Edgar Allan Poe

KANT, Immanuel. Ideia de uma Historia Universal de um Ponto de Vista Cosmopolita.

BEJAMIN, Walter. Paris, a capital do século XIX.

ORWELL, George. 1984

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