O quinto assalto (Conto)

Heraldic_hourglass.svgCarl fazia uma boa luta, mas 1 minuto antes do fim do quinto round vacilou com a guarda. O adversário acertou um jab no seu rosto de em seguida um cruzado, em cheio, na ponta do queixo. Por pouco, Carl não foi à lona no mesmo instante, ao invés disso, deu um passo para trás, encostou nas cordas e preparou a defesa para os próximos golpes, sabia que seu rival também buscava a vitória e a queria o mais depressa possível. O round estava praticamente perdido, mas Carl sabia que poderia terminar em pé….… salvo pelo gongo, caminhou até seu corner ainda sob efeito do murro que sofrera a instantes.

Encostado nas redes, levando a sequência de golpes porém variados, Carl se lembrou do árduo treinamento e de todas as lutas que o permitiram chegar até ali. Olhava nos olhos de seu adversário buscando prever onde seria o próximo soco e só pensava nas instruções de seu treinador: “não baixe a guarda, custe o que custar, não baixe a guarda”. Já havia cometido o erro segundos antes, mas não permitiria uma decepção à equipe e ao público sendo nocauteado. Ele tinha que assimilar o golpe e se manter no combate.

O gongo permitiu seus minutos de descanso, sabia que havia sido derrotado no assalto, viu seu adversário ir para o corner oposto sorrindo e comemorando com as luvas ao alto, mas não se sentiu completamente derrotado porque sabia que voltaria mais forte para a sequência da peleja. Carl sentou-se no banquinho e ouviu em silêncio a bronca de seu treinador: “PORRA! cuidado com essa guarda, quantas vezes falamos sobre isso na academia….. você perdeu esse, mas está em pé, ganhou os quatro primeiros. Respira, sobe essa bosta de defesa e faz a luta que estava fazendo até aquele cruzado.”

Enquanto ouvia aquelas instruções fitava novamente o corner adversário, onde seu rival estava ofegante, com ar presunçoso de quem já tinha a vitória garantida. Insolentemente não devolvia o olhar e falava com seus treinadores sobre a comemoração da noite…. Carl sentia o sangue subindo, mas ao mesmo tempo, sabia que não poderia voltar ao ringue sem ter a cabeça no lugar. “Assimilar o golpe, subir a guarda e fazer o feijão com arroz. Assimilar o golpe…. feijão com arroz”…… Por alguns segundos fechou os olhos e pensou na sua história, os primeiros treinos na escola pública, a evolução para a academia do bairro, o incentivo dos amigos, as dificuldades que sua mãe teve para criar todos filhos sozinha….

Quando abriu os olhos de novo estava em paz: “perdi só um round, o barulho no interior do ginásio, não representa toda a torcida”….. Soa o gongo………… “Vai pra lá…. a mesma tática de antes…. FAZ A PORRA DO FEIJÃO COM ARROZ, A PRIMEIRA COISA QUE VOCÊ APRENDEU NESSE ESPORTE… NÃO INVENTA, NÃO VACILA…. Você é mais rápido e mais esperto que ele….” Carl balançou a cabeça em sinal de positivo, se levantou e agora caminha em direção ao centro do ringue para o restante do combate……

Sabe que aquelas últimas palavras do treinador são verdadeiras…… os socos de seu rival eram pouco eficientes, a técnica não era trabalhada e a defesa era fraca..…. é hora de ser humilde, ter calma e paciência e procurar os espaços para encaixar seus golpes….. um a um….

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