Obituário (CONTO)

São Paulo, 25 de setembro de 2052.

 

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Esta manhã se encerrou a história do meu primo Júnior, com 52 anos. Nascemos no mesmo ano e, apesar de um certo distanciamento recente, era uma amizade que eu gostava de cultivar. Quando era criança ele achava a vida mágica, linda e harmônica, os pássaros cantavam e olhavam para ele, fazia bagunça na aula e brincadeiras com seus colegas. Não gostava que meninas jogassem bola com a gente e nem se o colega gordo caísse no seu time. Aos 9 anos levou uma surra do pai por ter chorado assistindo O Rei Leão: lembro bem de ter acompanhado meu tio gritando: “homem não chora, vou te transformar em homem de verdade”… Na adolescência adorava jogar games FPS e assistir vídeos explicativos no youtube. Achava que as aulas e os livros queriam doutriná-lo e saía em defesa do capitalismo. Quando tínhamos 16, soube o que ele e o pai estavam discutindo muito a respeito da carreira que pretendia seguir e em uma dessas brigas, foi segurado por seu velho por trás e quebrou o nariz dele com uma cotovelada.

Foi cursar a faculdade fora, ganhou um carro quando passou no vestibular e conheceu uma namorada no primeiro ano, a única que conseguiu durante todo o curso, não se sentia impedido, porém, de pegar várias minas bêbaças nas festas. Suas aventuras eram a regra da vida universitária. Fumou um baseado e deu uns tiros vez ou outra, mas seus pais nunca ficaram sabendo porque meu tio não receberia essa notícia pacificamente. Fez sempre o necessário pra passar nas matérias, empurrou os cinco anos com a barriga e formou-se ‘com honras familiares’ em uma festa empolgante, com bebida, música, dança e uma escultura de gelo. Rompeu seu relacionamento e voltou para nossa cidade de origem, onde conheceu a mulher de bem com quem poderia finalmente constituir sua família.

Começou a estruturar sua vida quando arrumou uma oportunidade de trabalho na empresa de um amigo de seu pai e lá teve seu primeiro salário e, posteriormente, sua própria sala. Casou-se e teve dois filhos e atingiu a estabilidade – sonhada – característica da classe média. Seu filho, de 19 anos, cursa universidade em uma cidade distante, mas não costuma entrar em contato e sua filha, uma menina de 15, está no segundo ano do ensino médio de uma conhecida rede particular do interior do estado. Ela tem uma amiga que visitava a casa depois da escola às vezes, uma loira muito bonita que chamava a atenção do meu primo que chegou a declarar para mim: “daqui uns anos vai dar um caldo!”. Ele odiava pensar que sua pequena já tenha beijado ou feito alguma coisa a mais, dizia que iria ensinar a garota como uma moça direita deve se vestir e se comportar, já que para ele “mulher tem que se dar o respeito”.

Junior gostava de discutir economia e política nas redes sociais, principalmente porque se sentia enganado pela imprensa e por sua educação escolar. Mantinha o hábito de gritar contra a doutrinação comunista e a inversão de valores sempre que tinha oportunidade. Tinha um grupo secreto em uma das redes pra compartilhar os pornozinhos e dizia: “Ninguém é de ferro pô!”. Pensava em escrever um livro sobre sua vida. Afinal, sempre superou todas as adversidades sozinho e colocou a honestidade em primeiro lugar: “pago meus impostos em dia e tenho muito orgulho de ser um brasileiro temente a deus”… Seus eloquentes discursos ecoavam em churrascos do trabalho, festas, bares e no tradicional natal de família, principalmente quando um de nossos sobrinhos assumidamente de esquerda e defensor da legalização da maconha aparecia. Tinha frases que sempre repetia: “direitos humanos são para humanos direitos” e “vamos botar esses hippies pra trabalhar”.

Era contra o casamento homossexual e a adoção de órfãos pelos mesmos, porque achava que o Brasil não poderia se tornar uma ditadura gay. Achava que a política de cotas em universidades públicas era racista “porque colocava negros em um patamar inferior”. Era contra direitos trabalhistas “porque estrangulavam os empreendedores”. Fazia oposição ao financiamento público de obras de infraestrutura, defendia a moral e os bons costumes, queria que as escolas e a segurança fossem militarizadas para ensinar valores aos jovens e que restrições à migração eram necessárias. Achava que expressões contemporâneas não eram arte de verdade e que eram “coisa de vagabundo que não gosta de trabalhar”. Para ele, o nazismo havia sido um movimento de esquerda “porque era anticapitalista” e o feminismo “apoia a morte de bebês!”. Quando perguntavam sobre seu posicionamento político, respondia: “sou liberal na economia e conservador nos costumes”.

Há alguns meses comprou uma arma para defender sua família dos bandidos. Na mesma época, plantou uma árvore pela paz em um evento de caridade na escola da filha… algumas semanas depois, sua vida mudaria radicalmente: Discutiu com a menina porque esta resolveu se abrir e dizer a verdade sobre a amiga. Júnior quis expulsar a garota de casa, não entendeu como ela pode fazer isso com ele se teve uma educação excelente e um pai presente. No entanto, foi abandonado pela garota e pela esposa. Eu e tio tentamos acalmá-lo mas ele repetia copiosamente: “sempre fui um cidadão de bem, elas não podem fazer isso comigo!”. Em uma noite sozinho, carregou seu revólver, entrou no carro e se pôs em direção da casa de sua sogra…… desistiu, mudou o destino e parou em um bar desconhecido…. contou sua primeira ideia para o dono do botequim, que nos revelou que ele bebeu……. voltou para o casa……….deixou a arma em cima da cama……

…….. hoje foi encontrado na garagem. Os vizinhos estavam reclamando do cheiro. Não levantará mais o dedo em riste para fazer seus discursos. O único movimento que se observava eram de seus pés rodando em uma variação de 30° no sentido horário e em seguida no sentido anti-horário. Deixa uma arma que nunca foi utilizada e um cartão de crédito estourado……

3 comentários em “Obituário (CONTO)

  1. Em vários momentos quase desistir de ler o teu conto, por ser teu primo uma pessoa totalmente avessa a tudo que acredito, mas não consegui desistir da leitura, talvez por ter várias histórias legais com meus primos e primas e esperar no próximo parágrafo algo diferente.

    Jamais imaginei o desfecho.
    Muito triste.

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