O tempo acabou… (conto)

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Era 45 do segundo tempo, Dam se aqueceu a pedido do técnico para entrar e fazer sua estréia no time profissional, mas em um dia pouco promissor, a equipe estava empatando e sendo desclassificada pelo rival em casa, criando poucas chances de finalização, cansada e desesperançosa depois de uma partida intensa com várias chances perdidas. Nos primeiros instantes pensou que assistiria a eliminação de dentro do campo, logo na sua estréia, que a substituição tinha sido uma última cartada do professor para dar explicações aos repórteres ao final do jogo, pensou na possibilidade de ter que encarar repórteres na beira do campo, mas principalmente, pensou que seus companheiros precisavam de um milagre e ele, um ainda maior… e aos 48 minutos ele veio……. após uma investida pela ponta direita, a bola rebateu algumas vezes próxima à baliza e, por alguma razão que ninguém entendeu bem, rolou em sua direção, praticamente paralela à linha de fundo, a três passos da grande área, ligeiramente deslocada para o lado esquerdo do campo de ataque…..…

Dam teve uma sensação que fez o tempo parar, refletiu que carregava nas chuteiras anseios de milhares de torcedores presentes, mas paradoxalmente, sabia que  não teria a responsabilidade de salvar o campeonato…… Mesmo assim, deu uma última passada, respirou fundo e bateu com o lado interno do pé direito, acertando um chute que nunca havia acertado – nem em treinos – guardando seu primeiro gol na gaveta esquerda da trave, onde a coruja dorme, sem nenhuma possibilidade de defesa para o goleiro adversário…… Antes mesmo das redes balançarem torcedores já choravam, a emoção era tanta que mal se comemorava olhando para o campo, mal sabia-se onde o protagonista estava, apenas estravazavam solitarimente em meio à multidão, como ele próprio, aquele momento fugaz e catártico que atravessaria a eternidade……

O tempo estava parado novamente, mas dessa vez, para os torcedores, jogadores, comissão e até adversários….. no mesmo dia, todos iriam refletir sobre aquele feito, pensar, assim como aqueles que assistiam pela televisão e o próprio herói daquela tarde, no tamanho da façanha, na sorte que tinham de ter presenciado aquele momento extraordinário, mas não naquela hora, nos instantes que sucederam o chute não existia espaço para a racionalidade! Dam, também ensandecido, corria sem rumo, desviando do restante da equipe, na mesma medida que comemorava com todos eles, foi em direção a torcida, a equipe, a zaga, e após alguns breves instantes, em direção ao banco de reservas, precisava agradecer ao professor. Em uma rápida fitada percebeu que este dividia do mesmo sentimento que os demais, corria em círculos, pulava e socava o ar, abraçava o restante dos suplentes e da comissão técnica e ainda antes de Dam chegar, se ajoelhou e gritou uma vogal qualquer com o rosto próximo ao chão.

O encontro dos dois coincidiu com o momento em que os ânimos começavam a se dissipar, a torcida se lembrou de agradecer seu herói naquele fim de tarde, a equipe voltava para compor suas respectivas posições…… nos braços do técnico ele agradecia a oportunidade de entrar em campo e quando voltava ao gramado para recompor a equipe pensou na sorte que tivera por estar naquele exato local, naquele exato momento! “Se concentra, ainda temos alguns minutos para segurar os caras!”, ouviu do técnico, mas Dam não conseguia esconder o sorriso, não conseguia parar de pensar que acabava de marcar seu nome na história do clube, que protagonizou um momento que ficaria marcado na memória de seus companheiros, do treinador e na de milhares de torcedores e amantes do futebol que acompanhavam a peleja. Não existia nenhuma certeza de que teria uma carreira vitoriosa, mas aquele primeiro instante já valia sua assinatura na posteridade….… 19 anos, um único toque na bola, um gol antológico que classificava sua equipe para a final e eliminava o rival……

O apito final gerou outro breve momento de comemoração, intensa, porém, mais comedida que a de instantes atrás, provavelmente os presentes nem tinham condições físicas para outro momento com a mesma magnitude….. alguns jogadores se jogaram no chão e lá permaneceram como boxeadores nocauteados, pela emoção, cansaço ou até pelo alívio! Dam mais uma vez estava sem rumo e novamente correu em direção ao banco de reservas de onde saíra anônimo minutos atrás. Reencontrou o técnico, que desta vez fez o agradecimento, e junto com ele, uma multidão de repórteres ansiosos para ouvir sua voz…. “agradeço à equipe, à instituição e ao professor pela oportunidade, agora temos que pensar na final”………. não havia muito mais o que dizer, a explosão do gol, o êxtase, a classificação havia retirado parte de sua capacidade racional…. acenou para a torcida que gritava seu nome e deixou o gramado já iluminado pelos holofotes…..

A cena do gol iria ecoar em sua mente a noite toda, assim como a sensação de ver um estádio explodindo em emoção e alegria, de retirar uma multidão, por um efêmero instante, da sua condição de normalidade…. Um chute!….. Um gol que entraria para a história do futebol e de seu clube, um gol que ficaria marcado na memória de todos amantes do esporte! No dia seguinte, jornais do mundo todo estampavam Dam….. “O dia que o tempo parou”, “Hero for one day”, “le pouvoir d’un but”, “Una patada para la historia”…… noticiou-se também a respeitosa postura de rivais e adversários, que sabiam também como aquele feito seria lembrado como um exemplo do poder e da capacidade aglutinadora do futebol………………… “O DESPERTADOR, que bosta……. devia ter treinado pra ser jogador” ………………………….

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